sábado, 17 de junho de 2017

ALTERNATIVA NO NORTE DO PARANÁ

Cultivo de camarão de volta ao Norte do Paraná

Com carne de textura diferenciada e sabor mais suave, o camarão-gigante-da-malásia pode ultrapassar 40 gramas em quatro meses de cultivo, bem superior às 10 a 12 gramas do marinho

Nos tanques escavados pelo Paraná – onde as tilápias reinam soberanas - uma oportunidade para os piscicultores ressurge no último ano com grande potencial. O nome da espécie é complicado, Macrobrachium rosenbergii, conhecido como camarão-gigante-da-Malásia, ou ainda, Pitu, um crustáceo que se adapta muito bem no sistema de policultivo com peixes de água doce.

Os trabalhos com essa espécie no Estado já têm um histórico de alguns anos. As tentativas de implementação em diversas regiões, entretanto, sempre esbarraram na produção e obtenção de pós-larvas, que seria o equivalente aos alevinos de peixe, produzidas em laboratório. Durante um tempo, as pós-larvas eram "importadas" de outros estados, como Rio de Janeiro e Espírito Santo, mas a dificuldade de logística atrapalhava muito o processo, o que esfriou a produção. Agora, especialistas das regiões de Palotina (Oeste) e Laranjeiras do Sul (Centro-Sul) resolveram desenvolver laboratórios na região, o que facilitará demais a implantação de uma cadeia sólida em terras paranaenses, inclusive em Londrina.

O camarão de água doce voltou e tem tudo para dar certo. Com uma carne de textura diferenciada e sabor mais suave - mais parecido com a lagosta - o gigante-da-malásia pode ultrapassar 40 gramas em quatro meses de cultivo, bem superior às 10 a 12 gramas do marinho. No País, o Estado de maior representatividade é o Espírito Santo, com uma produção que varia entre 200 a 300 toneladas. Já a produção do camarão marinho é forte no Nordeste, com um volume de 70 mil toneladas.

Eduardo Ballester é professor do Laboratório de Carcinicultura da Universidade Federal do Paraná (UFPR), campus Palotina. Desde 2010 ele trabalha num projeto de extensão com o crustáceo e ao longo desse tempo atendeu mais de 20 produtores dos municípios de Palotina, Toledo, Terra Roxa, Nova Santa Rosa, Marechal Cândido Rondon, Maripá, Brasilândia e Assis Chateaubriand. "Entramos com a tecnologia e conhecimento no sistema de policultivo, já que a produção de tilápias em viveiro escavado é muito grande. Os resultados com o camarão sempre foram muito bons, mas o fator limitante para a evolução do projeto eram as pós-larvas, devido ao risco de problemas de transporte de outros estados".

Com os laboratórios instalados e a grande aceitação dos consumidores, que procuram demais pela iguaria, a perspectiva é que a próxima safra cresça consideravelmente com os novos laboratórios. "Existe um interesse muito grande dos produtores de diversas regiões e estados, que nos procuram e querem saber mais sobre esse mercado. Como a margem de lucro da tilápia não é muito grande, por outro lado esses camarões podem ser vendidos de R$ 40 a R$ 50 o quilo, ou até valores maiores para aqueles com peso acima de 50 gramas".

MANEJO

Já o sistema de manejo é bem similar ao monocultivo da tilápia. Alguns cuidados são necessários, como no preparo do solo do viveiro e ainda colocar o camarão primeiro no tanque escavado, e só depois de 15 dias, a tilápia. "No momento que colocou o peixe, o manejo segue exatamente igual. No final do processo, na despesca, é preciso cuidado para separar os animais. Já o abate precisa ser feito rapidamente no gelo para manter a qualidade da carne, mas nada muito complexo. Tem muita gente interessada em fazer os testes com os camarões e diversificar sua produção", diz Ballester.


Laboratório de Palotina vai produzir 10 milhões de pós-larvas por ano

Neste ritmo de retomada da produção do camarão de água doce no Paraná, aproveitar as oportunidades que surgem é fundamental. Foi este cenário positivo que o zootecnista Victor Vendrame e seu sócio, o engenheiro de alimentos, João Bosco Dias Pinheiro, de Palotina, perceberam no último ano e, então, resolveram focar na produção de pós-larvas em laboratório, um dos gargalos da cadeia até então. O negócio tem parceria com a UFPR para fomentar a atividade.

Na cidade de Palotina, eles investiram na construção de uma estrutura para produção de 10 milhões de pós-larvas por ano, da espécie Macrobrachium rosenbergii: o camarão-gigante-da-malásia. No primeiro ano da Lacqua Camarões, foram comercializadas 500 mil pós-larvas para os estados de Mato Grosso, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo, Minas Gerais e Paraná. Aqui no Estado, vende para associações e cooperativas ligadas à piscicultura de Londrina, Maringá, Cianorte, Jataizinho, Açaí, além das cidades do Oeste, forte na produção de tilápia.

O maior entrave era a falta de pós-larva, mas com a experiência do laboratório de Palotina, a barreira foi superada
O maior entrave era a falta de pós-larva, mas com a experiência do laboratório de Palotina, a barreira foi superada


Os empresários possuem grande experiência em piscicultura e, antes dos camarões, o foco do trabalho era a produção de alevinos de espécies marinhas. "Com a tilápia entrando no mercado, essa criação ficou mais complicada, aí apostamos na produção de pós-larvas de camarão em laboratório, já que no País existem poucos estabelecimentos que fazem isso".

Outro ponto importante que gerou a aposta neste cultivo foi que em decorrência da doença mancha branca - um vírus que diminui consideravelmente a produção de camarões marinhos o mercado de camarões de água doce ganhou espaço. "O retorno financeiro está maior, o preço subiu e aí veio a ideia de criar esse sistema. Quando cursava zootecnia na UEM (Universidade Estadual de Maringá), ainda na década de 1980, conheci essa espécie e enxergava como uma opção para o futuro", diz Vendrame.

ESTRUTURA E PREÇOS

Na prática, o trabalho em laboratório funciona da seguinte forma. Primeiramente engorda-se os camarões e, então, ocorre a seleção dos reprodutores. Em sistema fechado, coloca-se num tanque de eclosão em água salgada. Depois, o material é repassado para os tanques de larvicultura. Lá ficam por 30 dias, passam por todas as fases, até se transformar em pós-larvas. Então vão para a água doce e seguem para os produtores. "O pessoal não conseguia trabalhar porque não existia essa disponibilidade grande de pós-larvas".

De acordo com o especialista, um milheiro de pós-larvas gira em torno de R$ 200. Os animais, que passam por um período de engorda de pelo menos quatro meses, ficam em média 40 gramas, mas podem chegar a 500 gramas. O quilo pode ser comercializado a R$ 50, mas pode chegar até R$ 100, dependendo do peso, local de venda e qualidade da produção. "É possível colocar de 5 a 12 camarões por metro quadrado junto com a tilápia. Trabalhar em consórcio reduz o custo de engorda do peixe, já que o camarão come a mesma ração da tilápia, ou seja, é um valor agregado ao sistema".

No que diz respeito às questões técnicas para o cultivo, Vendrame explica que os cuidados são os mesmos da piscicultura, com PH, oxigênio, e outros parâmetros de qualidade da água. "São animais resistentes, mas não podem ficar em temperatura abaixo de 15ºC e o oxigênio abaixo de 3mg por litro. O ideal é 4mg por litro. A temporada ideal inicia em setembro e vai até janeiro. Mas vimos resultados positivos em outros meses, antes da chegada do inverno"

Para o próximo ano, a expectativa já é atingir a capacidade máxima do laboratório. "Tem tudo para dar certo. A gente apostou nisso e estamos montando convênios com frigoríficos, abatedouros e restaurantes. O maior entrave era a falta de pós-larva, tendo essa disponibilidade, é uma barreira superada", comemora.
Victor Lopes
Reportagem Local/FOLHA DE LONDRINA

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